Blógico!

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Conto exótico

Uma história quase erótica de final feliz.

Eu deitado rente à parede – o lençol branco dançava com nossos movimentos desordenados – ela segurava minha mão e o mundo girando enquanto, aos gritos, eu me perdia – não sabia quem era ou onde estava – sabia o que fazia e só – às vezes distinguia a luz, a cadeira e os olhos dela, mas perdia a noção outra vez quando uma nova onda rompia as represas do meu corpo…

Mas para as coisas chegarem a este ponto não podem ter começado daí. Eu tinha resolvido que naquela noite a faria uma surpresa, um tratamento todo especial. Comecei por baixar as luzes, a casa estava arrumada e aconchegante. Lá fora a chuva beijava a paisagem e dentro de casa o calor não via motivos para se dispersar. Coloquei uma música relaxante, fiz um carinho de leve em sua face, cheguei perto e com um beijo a convidei para o chuveiro. Entramos juntos.

Não tive pressa alguma: Molhei todo o seu corpo olhando-o com desejo. Desliguei a água e a ensaboei inteira, movimentos lentos e amplos com a esponja macia, nas costas, faziam com que ela arrepiasse empinando de leve, olhos fechados num sorriso descansado e maroto. Ela adorou o carinho com que lavei cada parte de seu belo e esbelto corpinho de dançarina, o sabonete cremoso tornava cada contato entre nós uma delícia que prolongávamos com xamêgos e apertões. Passei shampoo em seus cabelos, limpei os pés, demorei-me ao ensaboar as coxas que se ofereciam ao carinho.

- Nossa, ninguém nunca me deu um banho assim… – ela disse em êxtase ao perceber que além da excitação havia um carinho legítimo – e isso nos excitou mais. Ao secá-la, trocamos um longo e profundo beijo, a toalha quase caiu, levei-a no colo para a cama. Incenso, música, meia-luz e ela na cama, deitada de bruços com a toalha enrolada no corpo me olhando como quem pergunta “e agora?”. Uma vela acesa no chão, dentro de uma taça quebrada, dava o toque romântico e informal para que eu apreciasse aquelas curvas. Ah, aquelas curvas… Peguei na gaveta um frasco, ela perguntou o que era. Mostrei o rótulo, um óleo de massagem.

Eu me deliciava com as seguidas expressões de surpresa e deleite que ela fazia enquanto minhas mãos a acariciavam na pressão exata. Primeiro os pés, as batatas das pernas, as coxas. A cada ameaça de subir as mãos pelo meio das pernas ela respondia com uma leve empinada, um gemidinho, uma mexida com o quadril. Brinquei ali um pouco, meus dedos espalhando o óleo em cada parte da virilha, dos pêlos, da bunda. Ela queria mais, todo o corpo pedia por mais… enquanto eu massageava suas mãos e ombros. Por fim desenrolei a parte da toalha que tampava suas costas de ângulos retos convergindo para o quadril calipigio! Ea já estava nua, apenas com um pedaço de toalha por baixo, ainda de bruços já gemia com mais ímpeto, sorriso aberto, totalmente relaxada abria as pernas num convite arrastado. Levantei, vislumbrei mais uma vez seu corpo desejoso, fui ao computador e baixei a música, voltando para a cama aonde era esperado.

Uma dor lancinante me rasgou de baixo a cima, berrei desesperadamente acordando oito vizinhos, não podia ficar de pé, corri para a poltrona urrando de dor – o sangue jorrava do meu pé direito de onde pendia o enorme pedaço da taça quebrada que servira de pedestal para a vela – ela levantou desesperada e nua, correu para acudir e quase desmaiou com a visão do sangue em jatos horrendos – ao se afastar ela quase queimou o pé na vela que, ainda acesa, chamuscava o chão de taco – fui num pé só para o banheiro.

Ela não sabia o que fazer, pedi calma e disse que ia arrancar o pedaço de vidro – ela gritou NÂO! mas eu já arrancava – o sangue tomou metade do chão do banheiro – lavei a ferida sujando toda a pia de um vermelho vivo, pulsante, urgente (foi uma artéria, pensei) – pedi que ela pegasse uma muda de roupa, dinheiro e minha carteira do plano de saúde – rasguei a camisa, amarrei fazendo pressão, em pouco tempo o pano estava todo vermelho – ela repetia MeuDeusMeuDeusMeuDeus enquanto me ajudava a me vestir, pedimos um táxi – previsão para chegada: 20 minutos – não podíamos esperar – dor, muita dor – descemos e fomos pegar um táxi na rua – toca para a Policlínica, dor, muita dor, abre isso, dor, xiii… vai ter que levar ponto! Anestesia, dor, desinfeta, dor, calma meu filho, dor, vamos dar os pontos – o enfermeiro pacientemente aguentando meus lamentos na maca…

Eu deitado rente à parede – o lençol branco dançava com nossos movimentos desordenados – ela segurava minha mão e o mundo girando enquanto, aos gritos, eu me perdia – não sabia quem era ou onde estava – sabia o que fazia e só – às vezes distinguia a luz, a cadeira e os olhos dela, mas perdia a noção outra vez quando uma nova onda rompia as represas do meu corpo – ondas de dor que a anestesia parecia não combater em nada.

Voltamos para casa de manhã. Eu havia perdido muito sangue e atingido um nervo delicado, fiquei três meses usando bengala e até hoje sinto reflexos no pé direito. Demos uma rapidinha sem jeito – dor, muita dor – e fomos dormir – exaustos, não saciados e felizes.

Pbl.

04-05-09 Publicado por pabloramos.com.br | Contos, Espelho meu, Humor | | 2 Comentários

Pretensioso, eu? Sim, confesso…

Para completar os comentários que fiz sobre minha vida na favela (ver post “Registro em Fotos 2“), e ainda para declarar mais uma vez meu amor pelos terraços (ver post “Lugar Nenhum“), esta crônica escrevi em 2001 – muito pretensiosa, eu sei, se quiser parar a leitura no meio eu vou entender ;-)

“Buscava refazer o caminho que me trouxera até ali. Parecia que toda minha trajetória podia se resumir àquela imagem da noite. No terraço, bolha de breu entre as luzes da favela, me espichava sem mover músculos, como só é possível sobre as redes. Senti-me capaz de absorver-me e viver as memórias mais imediatas, o que também é uma forma de estar no presente. Neste raro momento, fui épico.

Mas uma lacuna, silenciosa e doce, se impunha. O que era, senão um vazio tão repleto que se abstinha de qualquer angústia, compaixão ou calmaria? Restava-me somente sê-lo – e até hoje, como se na memória do coração viessem gravadas as lembranças dos olhos, vejo a mureta, a encosta à frente com suas casas amareladas de tempo, pobreza e luzes baratas, o céu desestrelado, embaçado pela presença luminosa da cidade e o zigue-zague do varal de longos arames açoitando todo esse esboço de paisagem.

O tempo veio e virá, e eu podia sentir a torrente como se, sempre levado pelas águas, de repente agarrasse um galho e sentisse no corpo, pela primeira vez, que a água corre, enfim.

Certa vez, por volta dos dez anos, estava na cozinha com minha mãe. Devia ser um sábado, tarde talvez nublada, mas dia e hora não chegavam à cozinha sem luz natural, e reinava a lâmpada fluorescente, provendo quase sempre a mesma atmosfera. O assunto era uma das eternas tensões que sempre nos seguiram e uniram, e eu já vinha ouvindo palavras mais rígidas, até que mãe se perdeu em repreensões, dedo levantado e carranca colérica, coisas que para um menino sempre são um tanto vagas. Encolhido no canto do chão aonde já me encontrava eu via minha mãe se precipitar naquele ângulo ameaçador, e apesar de saber nulo o risco de um tapa sequer, me perdia na confusão do esporro e de meu desentendimento. De súbito me passou que se mãe morresse no dia seguinte aquela imagem ficaria talhada enquanto eu vivesse, e me ocorreu fixar a imagem, com a atenção que ela mereceria se um dia se tornasse sagrada. Apreendi todos os nuances de luz que já me eram tão familiares e ali faziam outras sombras. Me dedicava com fervor em fixar em nobre espaço da memória o quadro daquela mulher que cuspia lições rígidas, punha o dedo firme na minha cara e tentava me abrir os olhos para alguma coisa, com um naco da geladeira amarela ao lado e a lâmpada fluorescente bem em cima, ofuscando e renegando a professora às sombras. Mãe não morreu no dia seguinte, eu não me importei com a natureza macabra desta estranha forma de amor e a imagem está em exposição permanente aqui dentro, até sempre.

Já vem de muito, então, a minha fixação em fixar imagens, e tanto a tarde na cozinha quanto a noite no terraço não precisaram se encher de surpresas ou terrores para estarem eternizadas em mim. Na rede, lamentava pela enésima vez que na cidade as estrelas fossem tão tímidas, mas elas haviam, e cada uma era um clarão de século que eu atravessava esperando o retorno da cria ao colo.”

08-04-08 Publicado por pabloramos.com.br | Contos, Desabafo | , , , | 1 Comentário