Santa barbárie !!!
Agora que o carioca começa a se dar conta do nível bélico atingido na guerra cotidiana – agora que não chovem apenas balas, mas também aeronaves… Agora… E AGORA???!!!
Já esquecíamos o último rompante de violência, não sei se Garoto arrastado, Bebê fuzilado pela polícia, Roubo de armas no quartel ou Sequestro do 175… Sei que quando já esquecíamos, um helicóptero da polícia militar caiu em nossas cabeças, explodindo no campo das consciências amortecidas.
Décadas de exclusão sistemática transformaram o Rio de Janeiro em palco do bárbaro espetáculo carioca deste começo de século: território fragmentado e ocupado por organizações criminosas armadas; população vítima impotente de confrontos sem fim; classe média confinada em casa ou nos shoppings e ricos gastando rios caudalosos de dinheiro em fortalezas, blindagens, câmeras, sensores e alarmes – comprando a melhor proteção enquanto o resto da população faz o que pode com precauções, orações e Lexotan.
Sempre soluções particulares (com exceção das orações em nome de todos) para um problema que é público. Desde o início dos anos 90 o discurso do ”privado-acumulativo-o-social-é-consequência” vem sido martelado e repetido. Precisamos do onze de setembro para questionar verdades absolutas que vinham guinando o mundo para o suicídio.
Mas participar saiu de moda. Pois é participação da população o que falta para esta e tantas outras metrópoles superarem a doença de ser violento, seja atirando ou excluindo, ferindo ou se omitindo, roubando ou abandonando, sequestrando ou esquecendo.
Não fazer nada também é uma violência.
Presença dos deputados da Alerj
Email do seu deputado estadual
Plano diretor da Cidade do rio de Janeiro
Transparência Olímpica – Rio 2016
Ação da cidadania contra a fome, a miséria e pela vida
CUFA _ Central Unica das Favelas
Pbl.
No próximo post: Nós adoramos os bandidos…
Incolor
Um pombo incolor desce o nublado vão
Da inspiradora paisagem de concreto
O império do ãngulo reto
Sob as asas desse rato impune
É um hiato na razão,
Uma distância que nos une
Buscando seu banquete
Cisca meu peito o bicho arredio
Vasculha o vazio aonde homem pisa
E tudo é sóbrio, claro e sombrio
Sob o céu, sobre o chão, em toda parte
A arte se esconde no dia cinza
E no coração tremula o estandarte
Da vastidão desta terra nula e boa
Aonde sorrir a toa é o maior desafio.
Pbl
Para deleitar-se, ó pá
Quem diria que o épico autor dos Lusíadas seria assim um coração de manteiga (numa época em que não havia geladeiras para se manter a manteiga sem derreter à toa.) Luiz Vaz de Camões dispensa títulos ou comentários. Heis um de seus intermináveis sonetos de amor. Este diz muito por mim, em suas poucas palavras.
Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou enganoso.
Amor é brando, é doce e é piedoso:
Quem o contrário diz não seja crido,
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e ainda aos deuses, odioso.
Se males faz Amor, em mim se vêm;
Em mim mostrando todo seu rigor,
Ao mundo quiz mostrar quanto podia.
Mas todas as suas iras são de Amor;
Todos esses seus males são um bem
Que por outro bem não trocaria
Mil motivos para me manter otimiista
Como já dizia o poeta (aquele poeta anônimo evocado quando não sabemos da origem de algo pretensamente bonito de que falamos), “Otimismo não é um estado de espírito, é um modo de encarar a vida”. Ou será que ele, o poeta, disse isso do humor? Tanto faz, estaria correto em ambos os casos. Frequentemente reproduzimos chavões como “Os tempos são duros”, “Não se há tempo para mais nada”, “Inversão de valores”, “Onde este mundo vai parar?” e tantos outros, dando eco ao côro dos cabisbaixos inveterados, aumentando a porção de desesperança diária. Os tempos são duros mesmo, e muito, realmente não temos tempo para quase nada além de trabalho, é fato que há uma “migração” de valores e eu confesso que também não sei onde este mundo vai parar (ninguém sabe afinal), mas não vejo em nada disso motivo para lamentação ou desânimo – vejo antes tantos outros motivos para crer mais e sempre na raça humana e no seu progresso moral, e vou tentar expô-los nessas tortas linhas de raciocínio.
Leonardo Boff disse em uma palestra na USP (provavelmente citando um poeta) que precisamos ser pessimistas no diagnóstico e otimistas na ação. Seria inútil desfraldar as intermináveis razões pelas quais achamos que “O mundo está perdido” (outro chavão), mas vejamos o contexto geral em que vivemos, e que já é ótimo material para um diagnóstico pessimista:
Pretensioso, eu? Sim, confesso…
Para completar os comentários que fiz sobre minha vida na favela (ver post “Registro em Fotos 2“), e ainda para declarar mais uma vez meu amor pelos terraços (ver post “Lugar Nenhum“), esta crônica escrevi em 2001 – muito pretensiosa, eu sei, se quiser parar a leitura no meio eu vou entender
“Buscava refazer o caminho que me trouxera até ali. Parecia que toda minha trajetória podia se resumir àquela imagem da noite. No terraço, bolha de breu entre as luzes da favela, me espichava sem mover músculos, como só é possível sobre as redes. Senti-me capaz de absorver-me e viver as memórias mais imediatas, o que também é uma forma de estar no presente. Neste raro momento, fui épico.
Mas uma lacuna, silenciosa e doce, se impunha. O que era, senão um vazio tão repleto que se abstinha de qualquer angústia, compaixão ou calmaria? Restava-me somente sê-lo – e até hoje, como se na memória do coração viessem gravadas as lembranças dos olhos, vejo a mureta, a encosta à frente com suas casas amareladas de tempo, pobreza e luzes baratas, o céu desestrelado, embaçado pela presença luminosa da cidade e o zigue-zague do varal de longos arames açoitando todo esse esboço de paisagem.
O tempo veio e virá, e eu podia sentir a torrente como se, sempre levado pelas águas, de repente agarrasse um galho e sentisse no corpo, pela primeira vez, que a água corre, enfim.
Certa vez, por volta dos dez anos, estava na cozinha com minha mãe. Devia ser um sábado, tarde talvez nublada, mas dia e hora não chegavam à cozinha sem luz natural, e reinava a lâmpada fluorescente, provendo quase sempre a mesma atmosfera. O assunto era uma das eternas tensões que sempre nos seguiram e uniram, e eu já vinha ouvindo palavras mais rígidas, até que mãe se perdeu em repreensões, dedo levantado e carranca colérica, coisas que para um menino sempre são um tanto vagas. Encolhido no canto do chão aonde já me encontrava eu via minha mãe se precipitar naquele ângulo ameaçador, e apesar de saber nulo o risco de um tapa sequer, me perdia na confusão do esporro e de meu desentendimento. De súbito me passou que se mãe morresse no dia seguinte aquela imagem ficaria talhada enquanto eu vivesse, e me ocorreu fixar a imagem, com a atenção que ela mereceria se um dia se tornasse sagrada. Apreendi todos os nuances de luz que já me eram tão familiares e ali faziam outras sombras. Me dedicava com fervor em fixar em nobre espaço da memória o quadro daquela mulher que cuspia lições rígidas, punha o dedo firme na minha cara e tentava me abrir os olhos para alguma coisa, com um naco da geladeira amarela ao lado e a lâmpada fluorescente bem em cima, ofuscando e renegando a professora às sombras. Mãe não morreu no dia seguinte, eu não me importei com a natureza macabra desta estranha forma de amor e a imagem está em exposição permanente aqui dentro, até sempre.
Já vem de muito, então, a minha fixação em fixar imagens, e tanto a tarde na cozinha quanto a noite no terraço não precisaram se encher de surpresas ou terrores para estarem eternizadas em mim. Na rede, lamentava pela enésima vez que na cidade as estrelas fossem tão tímidas, mas elas haviam, e cada uma era um clarão de século que eu atravessava esperando o retorno da cria ao colo.”
Blogada solitária
Pelo Dia Internacional Sem Post no Blógico ![]()

Registro em fotos 2
Umas das melhores épocas de minha vida foi quando morava de favor numa favela, subia uma ladeira e tanto pra chegar em casa e às ezes me desviava de uma bala perdida ou duas.
A favela é uma quando lida no jornal, outra no imaginário comum e uma outra ainda, quando vivida e vista lá de dentro. Pobreza é antídoto para a perda total dos vínculos sociais, a necessidade reagrupa em torno de uma lage ou parede a ser erguida, ou um churrasco, ou uma parede que deve ser pintada. O “gritofone”, jamais é ouvido nos condomínios silenciosos da Zona Sul, onde pode-se morar por vinte anos sem saber o nome da pessoa que está logo ao seu lado.
Entre 1999 e 2004 aprendi a amar aquele lugar, e ainda vejo gente espantada quando digo que amo essas fotos e as acho lindas. “Lindas? Como assim…?!” Se é uma prova patente de como tratamos uns aos outros hoje em dia, se é um monte de desencanto amontoado na encosta de uma vida dura, áspera – se é afinal isso que se vê, como pode ser lindo?
Pois é lindo, senhoras e senhores, não somente as fotos como também o lugar. Lindo porque é construído e mantido com muito suor e teimosia em viver. Fico muito agradecido à vida por ter me trazido essa experiência, que foi ótima para matar muitos preconceitos e lugares-comuns na minha mente que se achava tão prafrentex.
De volta aos prédios silenciosos, tento arduamente, dia-a-dia, criar algum vínculo com as pessoas que me cercam – alguns se fazem conhecer e parecem também afoitos por contato humano sincero, mas a maioria estranha e desconfia do mais simplório “bom dia!”. Geralmente os moradores estão entre os mais arredios – os faxineiros e porteiros, esses sim entendem a linguagem da simpatia gratuita, da aproximação, do calor. Quando foi que aprendemos a viver assim tão distantes, mesmo amontoados?
Seguem as vistas que recolhi do terraço da (então) minha casa, aquele terraço que me aclheu em momentos de meditação, amizade, amor, ginástica…

Em 1999, a vista que hoje é tão diferente, graças à vida que fervilha naquele lugar e em tantos outros.

Carnaval de 2002 – os holofotes do sambódromo rasgam o céu anunciando tempos de fantasia.

Madrugada, 2003 – Tive que estender lençóis por todo o terraço, no varal, para me esconder por trás deles ao fazer esta foto; questão de sobrevivência básica no ambiente selvagem.
Em breve um post só sobre terraços – todos os lugares em nenhum.
Pnl.
Poesia em foto: Soneto “Canto de Sombra” e as sombras que deram à luz seus versos
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Corre solto na madrugada o canto
Da procissão de solidões em coro
Abrindo no canto do peito um choro
Que sai mudo – ao avêsso – em desencanto
O silêncio, irmão mais velho do suplício
Esse mistério tão difícil de alma ingrata
Rouba-me o sono outra vez e me mata
Na vigília de penar em sacrifício
O tédio vem no encalço e não percebo
Que remédio pra torpôr é atitude
A insônia é que não passa de placebo
Ali ao pé do muro, a mancha de breu
Que se entrega ao sussurro da quietude
Ainda por esta noite sou eu!
Pbl
Tenho pressa…. pressa,pressa!
Quando eu assistia novela, e isso deve ter sido ha uns trezentos e quinze anos atrás, as coisas demoravam um pouco mais para acontecer. De relance vi umas cenas outra noite, enquanto jantava:
1- Num bar, a mulher diz ao advogado que não vai assinar nada;
2- Imediatamente depois, o advogado já está na casa do cliente, que reclama algo com ele;
3- Corte seco para a mulher, que já está em sua própria casa comentando com alguém e…
4- Outra cena, outro assunto, outra trama.

Que ritmo alucinado! Pra se fazer uma novela em três ou quatro meses só sendo assim mesmo, mas minha irmãzinha não entendeu minha estranheza. Expliquei que “no meu tempo” (coloco entre aspas pra não parecer tão velho), se a mulher dissesse ao advogado “Não vou assinar nada” você podia esperar um “tâ-tãããã…” de suspense, e só uma semana depois é que a gente ia saber o que o ex-marido mau ia aprontar.
Minha irmã estranhou um pouco em silêncio e quis saber se alguém dissesse que ia pra França, quanto tempo de novela a gente tinha que esperar. Uns três meses, eu disse, e tive que frisar que em três meses a novela não acabaria. E se o sujeito no primeiro capítulo dissesse que ia pro Japão, a gente só via ele chegando lá no último capítulo, ela arrematou. Sim, era mais ou menos assim.
No “meu tempo” (odeio ter que botar aspas pra não parecer velho), não haviam publicações on-line que o camarada atualizava diariamente, não haviam notícias a cada segundo, não havia um monte de coisa que há hoje, mas já havia a cultura do instantâneo se arraigando, já havia o discurso de “use a tecnologia pra ter mais tempo” etc. A propósito, numa palestra hem meados de 2005, na apresentação do pacote CS2 da Adobe, o palestrante demonstrou um recurso fantástico do Photoshop, e diante do “assombro
da plateia ele disse “com isso você pode automatizar as tarefas e ir mais cedo pra casa”. Porque será que todos riram rasgadamente? Estou certo de que aquela não era uma frase para fazer rir, mas o palestrante soube o porque das gargalhadas, e seu olhar concordava conosco (extra-oficialmente, claro).
Tenho reparado que os blogs com maior audiência e maior número de comentários são os que apresentam posts menores, mais enxutos.
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Por muitos motivos a história de Alice no País das Maravilhas agrada aos adultos, tanto quanto às crianças: tem lances lisérgicos e faz referências inteligentíssimas ao autoritarismo, à importância do lúdico e ao desejo inato de liberdade, mas um personagem-chave é o coelho que vive com pressa, tendo
em mãos sempre o relógio e sempre correndo, correndo… O bichinho é um ícone de nossos tempos, de nossa busca incessante por mais agilidade, mais dinamismo, mais lucro, mais vantagem, mais competitividade, mais agregação de valor, mais etcéteras e reticências etc etc etc…
Alice foi atrás do coelho e caiu numa trama que a desviava do caminho a cada esquina. Sempre ameaçada, pelo sonho, de realizar seu sonho. E nós, vamos ter pressa de ter cada vez mais pressa?
Encontrei um post no blog “Palavras que ficam” (de onde chupei a primeira imagem) que trata do mesmo assunto, vale conferir o bom conteúdo dessa publicação.
P.S.: Acho que esse post ficou muito grande, será que alguém vai ter tempo de ler?
Carta aberta
À diretoria da FINATEC e ao Sr. Timothy Mulholland
com cópia para órgãos e profissionais da imprensa.
Caros senhores, venho publicamente expressar meu desapontamento com os rumos dados aos recursos desta entidade, que “tem como foco principal captar recursos financeiros que serão investidos no desenvolvimento científico e tecnológico, na transferência de tecnologia e na pesquisa” (segundo declaração publicada no site da instituição). Compreendo perfeitamente a importância de uma boa decoração para o apartamento funcional do reitor da UnB conforme acordo firmado, e como programador visual não poderia negar a necessidade de se manter um ambiente planejado propício à realização de reuniões com autoridades, delegações estrangeiras etc.
Porém, diante da realidade em que a maioria da população sofre pela falta de condições básicas de vida e a pesquisa científica carece de recursos, me questiono (e ouço o eco desta pergunta pelo país a fora) se é realmente indispensável a aquisição de móveis e utensílios de luxo para tal fim.
Levado pela onda das denúncias relativas aos cartões corporativos, o caso do palacete funcional revela a cultura do abismo, que tem levado autoridades brasileiras, historicamente, a se proporcionarem confortos e exclusividades esbanjantes, quando não privilégios duvidosos. Em sua nota de esclarecimento, a FINATEC deixa claro a regularidade da aplicação dos recursos e esclarece que os R$ 470 mil da reforma são, em última instãncia, da UnB, mas não é a regularidade ou origem do dinheiro que está em questão, e sim o bom-senso em seu uso. Não queiram fazer a população brasileira acreditar que uma decoração de R$ 470 mil fazem mais diferença, numa reunião com autoridades, do que obom uso de R$ 470 mil em pesquisas.
Há muitos projetos interessantes nascidos da parceria entre FINATEC e Unb, como a turbina de energia hidrocinética, mas uma lixeira de R$ 999,00, um liquidificador de R$ 499,00 ou um jogo de chá de R$ 986, perante a situação de dificuldade que passa o ensino superior brasileiro, chega a ser insultante – regular ou não.
É preciso pensar e repensar a situação em que vivemos, antes de tomar decisões como a que o levou, senhor Timothy Mulholland, a assinar a norma nº 445, aprovada pelo Conselho Diretor da UnB em 6 de julho de 2006, que determina que a Fundação Universidade de Brasília (FUB) deve arcar com todos os gastos de moradia do ocupante do cargo de reitor, inclusive condomínio e estrutura. Segundo a FINATEC, “tendo em vista os interesses maiores da instituição”.
Qual interesse da instituição pode ser maior do que investir em pesquisa, afinal? Fazer bonito frente a um reitor estrangeiro? Não temos, senhores, condições de gastar dessa maneira , mesmo porque outros 300 apartamentos funcionais para estudantes de baixa renda da UnB receberam, no mesmo período, apenas R$ 100 mil – o que resulta em pouco mais de trezentos reais por unidade.
Os senhores já tentaram fazer uma reforma com trezentos reais? Impossível. Tal ninharia resolve no máximo questões emergenciais como goteiras, taco solto ou encanamento, já 470 mil reais pode fazer muita diferença – na escolha de uma lixeira ou no financiamento de um projeto.
Espero que a FINATEC aprenda com este caso a cuidar com mais humildade dos recursos que são destinados à sua causa primária, e que a sociedade brasileira, por sua vez, esteja cada vez mais e sempre de olhos abertos para que tais práticas e critério caiam, um dia, em desuso.
Respeitosamente,
Pablo Ramos
um cidadão brasileiro
P.S.: Fiquei feliz em saber que o senhor Timothy desocupou o apartamento em questão, o que e importante para a imagem da UnB e da FINATEC – que são bem maiores do que este incidente.



