Herói da Resistência
Neste mundo de conveniências, confortos entorpecentes e incômodos apelos de comodidade, lutam por ar puro e pelo direito de gritar alguns trabalhadores incansáveis do bom senso e da verdadeira arte: aquela que arrebata o artista e usa-o como mero instrumento de propagação do impulso da vida.
Victor Carlos Alexandre Conde Valevsky Colonna tem um talento mais extenso que o próprio nome – é poeta de mão cheia, escritor de mão pesada que pensa à mão livre.
Uma força da natureza que se prepara para lançar seu segundo livro, Cabeça, Tronco e Versos (obra-prima de uma vida que é “um livro aberto – a faca) e que mantém o incrível blog Deitando o verbo. Visite e deleite-se.
Sujeito Oculto
Pbl.
Incolor
Um pombo incolor desce o nublado vão
Da inspiradora paisagem de concreto
O império do ãngulo reto
Sob as asas desse rato impune
É um hiato na razão,
Uma distância que nos une
Buscando seu banquete
Cisca meu peito o bicho arredio
Vasculha o vazio aonde homem pisa
E tudo é sóbrio, claro e sombrio
Sob o céu, sobre o chão, em toda parte
A arte se esconde no dia cinza
E no coração tremula o estandarte
Da vastidão desta terra nula e boa
Aonde sorrir a toa é o maior desafio.
Pbl
Para deleitar-se, ó pá
Quem diria que o épico autor dos Lusíadas seria assim um coração de manteiga (numa época em que não havia geladeiras para se manter a manteiga sem derreter à toa.) Luiz Vaz de Camões dispensa títulos ou comentários. Heis um de seus intermináveis sonetos de amor. Este diz muito por mim, em suas poucas palavras.
Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou enganoso.
Amor é brando, é doce e é piedoso:
Quem o contrário diz não seja crido,
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e ainda aos deuses, odioso.
Se males faz Amor, em mim se vêm;
Em mim mostrando todo seu rigor,
Ao mundo quiz mostrar quanto podia.
Mas todas as suas iras são de Amor;
Todos esses seus males são um bem
Que por outro bem não trocaria
Épica
Esta coisa ao pé da língua é fatal
Nunca mingua e de fato não se cansa
De vencer todo encanto no seu ato
De ser a tal e me fazer criança
Formosura de lembrança preferida
Ofusca o mundo e a tela se transborda
Quando vem, ela é de um bem que um morto acorda
Quando vai derrama o doce de mil vidas
Dançando pelo assédio dessa mão
No compasso de absurdos mais ferinos
Balança e rouba o gostinho da atenção
Tão bonita para o apelo dos meninos
Conhece e dita a receita do calor
Bunda épica, clamor da perfeição!
para uma bunda em especial
Post rasgado
Já falei aqui uma vez sobre o Sons de Sonetos, blog maravilhoso do amigo André Luís, que garimpa obras-primas da literatura independente em forma de sonetos (com exceção do meu “Primeiro e último Soneto”, que pode-se dizer no máximo um esforço honesto de não fazer besteira).
Ontem bati o olho na mais nova publicação deste blog primoroso, o soneto “Aos Trancos e Barrancos“, de Eloah Borba, e fiquei sinceramente emocionado com a qualidade dos versos que o André escolhe para publicar.
Não resisti e comentei também em forma de soneto, um elogio rasgado ao poeta editor do blog e aos “gigantes esquecidos” que ali se encontram.
Falta primor em muitas rimas, algumas até óbvias, não há versos decassílabos etc mas a intenção não era superar o soneto que eu comentava (até porque isso seria impossível para mim). Eis o soneto:
COMENTÁRIO RASGADO
De certeiros sentimento e simetria
É não somente cada poesia
Como a escolha dos gigantes esquecidos
Que neste blog podem dizer-se lidos
Meu orgulho pulsa noite adentro
Por estar aqui enfileirado
E o peito, alagado de contentamento
Curva-se ante nomes de talento escancarado
Ouvir no vento os sons de sonetos
É renovar o peito castigado
E seguir sem precisar de nada
Vir aqui uma vez ao dia
É meter o dedo na tomada
E carregar a fatigada bateria
E não esqueça de visotar agora o Sons de Sonetos! ![]()
Pbl
Poesia em foto: Soneto “Canto de Sombra” e as sombras que deram à luz seus versos
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Corre solto na madrugada o canto
Da procissão de solidões em coro
Abrindo no canto do peito um choro
Que sai mudo – ao avêsso – em desencanto
O silêncio, irmão mais velho do suplício
Esse mistério tão difícil de alma ingrata
Rouba-me o sono outra vez e me mata
Na vigília de penar em sacrifício
O tédio vem no encalço e não percebo
Que remédio pra torpôr é atitude
A insônia é que não passa de placebo
Ali ao pé do muro, a mancha de breu
Que se entrega ao sussurro da quietude
Ainda por esta noite sou eu!
Pbl
Poema de poucas palavras
Por Beatriz Câmara – 2007
Hoje me faltam as palavras
Para esse poema que se faz em mim
Lateja e pulsa
Em todo o meu SER
Faltam palavras
Para expressar
O poema que já se fez
O poema que já é
Necessito escrever
Esse mar de sensações
Nesse profundo silêncio
De palavras…
Torre a desmoronar
Sem pressa
Passo a passo
Cuidadosamente
Observo e sinto
A cada noite
A cada dia
A cada instante
Escrevo , silenciosamente
Escrevo-me!
Intimidade passada a limpo
Intimidade, profana intimidade
Remédio pra quem ama e tem saudade
Hoje eu acordei com teu cheiro
Nos quatro cantos da cama
No corpo e no bairro inteiro
Além de toda cidade.
E digo sem embaraço
Toda vez que isso acontece
Furto desse cheiro um abraço curto
Enquanto a vida lá fora amanhece
Depois me entrego ao dia
Com tal alegria e furor
Que perdido, encontro a via
E cego reconheço a cor
Na lembrança daquela tarde bonita
O minuto astuto se arrasta
A solidão sozinha me basta
E qualquer celibato me excita
Você é fermento de tempo
É presente com laço de fita
Eu sou uma caixinha de palavras
Poeta é esse amor que me habita
Pétala
Por um instante és Pétala
E sou eu quem diz teu nome clandestino
Pra que o tempo te busque
E não haja em mim senão teu nome
Não seja senão teu gosto
Pendão do desgosto de não senti-lo
Quando destilo e desisto de lutar
Não sinta senão teu cheiro
Que toda esquina traz
Vem traiçoeiro, me atravessa e jaz
Por um instante não tens espinhos
E sou eu quem te fere com os dedos
Enquanto brotam linhas à ponta da língua
Ervas daninhas
Da escência que mingua à ausência tua.
Pablo Ramos
Primeiro e último soneto
Criva a bala e logo o peito chora
O corpo clama o solo em tombo atroz
Melhor sono que noção da hora
Na escuridão que já consome a voz
O erro vão em que já não tropeço
É a esperança de salvar-me a vida
Aquele irmão que se diz réu-confesso
Por ter-me feito esta mortal ferida
Sem desonrar ou cumprir compromisso
Me entrego à relva, ha muito inexistente
Pois já não tenho nada com isso
Desertando a condição de gente
Despejado às garras do sumiço
Torna ao mar a água desta enchente
Pablo Ramos

