Blógico!

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Registro em fotos 2

Umas das melhores épocas de minha vida foi quando morava de favor numa favela, subia uma ladeira e tanto pra chegar em casa e às ezes me desviava de uma bala perdida ou duas.

A favela é uma quando lida no jornal, outra no imaginário comum e uma outra ainda, quando vivida e vista lá de dentro. Pobreza é antídoto para a perda total dos vínculos sociais, a necessidade reagrupa em torno de uma lage ou parede a ser erguida, ou um churrasco, ou uma parede que deve ser pintada. O “gritofone”, jamais é ouvido nos condomínios silenciosos da Zona Sul, onde pode-se morar por vinte anos sem saber o nome da pessoa que está logo ao seu lado.

Entre 1999 e 2004 aprendi a amar aquele lugar, e ainda vejo gente espantada quando digo que amo essas fotos e as acho lindas. “Lindas? Como assim…?!” Se é uma prova patente de como tratamos uns aos outros hoje em dia, se é um monte de desencanto amontoado na encosta de uma vida dura, áspera – se é afinal isso que se vê, como pode ser lindo?

Pois é lindo, senhoras e senhores, não somente as fotos como também o lugar. Lindo porque é construído e mantido com muito suor e teimosia em viver. Fico muito agradecido à vida por ter me trazido essa experiência, que foi ótima para matar muitos preconceitos e lugares-comuns na minha mente que se achava tão prafrentex.

De volta aos prédios silenciosos, tento arduamente, dia-a-dia, criar algum vínculo com as pessoas que me cercam – alguns se fazem conhecer e parecem também afoitos por contato humano sincero, mas a maioria estranha e desconfia do mais simplório “bom dia!”. Geralmente os moradores estão entre os mais arredios – os faxineiros e porteiros, esses sim entendem a linguagem da simpatia gratuita, da aproximação, do calor. Quando foi que aprendemos a viver assim tão distantes, mesmo amontoados?

Seguem as vistas que recolhi do terraço da (então) minha casa, aquele terraço que me aclheu em momentos de meditação, amizade, amor, ginástica…


Em 1999, a vista que hoje é tão diferente, graças à vida que fervilha naquele lugar e em tantos outros.

Pôr do Sol em 2001

Carnaval de 2002 – os holofotes do sambódromo rasgam o céu anunciando tempos de fantasia.

Madrugada, 2003 – Tive que estender lençóis por todo o terraço, no varal, para me esconder por trás deles ao fazer esta foto; questão de sobrevivência básica no ambiente selvagem.

Em breve um post só sobre terraços – todos os lugares em nenhum.

Pnl.

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18-03-08 - Posted by | Arte, Design, Foto, Desabafo

3 Comentários »

  1. […] Para completar os comentários que fiz sobre minha vida na favela (ver post “Registro em Fotos 2“), e ainda para declarar mais uma vez meu amor pelos terraços (ver post “Lugar […]

    Pingback por Pretensioso, eu? Sim, confesso… « Blógico! | 08-04-08 | Responder

  2. Belo texto!!

    Concordo plenamente que as relações são totalmente diferentes!!

    Um Abraço!

    Comentário por Marcio | 20-03-08 | Responder

  3. Lindo o que acabei de ler.
    embora não morando lá em cima, mas quando vou ´para la dar as aulas de français no centro social no qual eu trab.
    me confronto com essas pessoas, e me sinto extremamente acolhido, porque eles ja não tem tantas coisas, e poderiam viver a resmungar por todos os cantos.
    mas o que vejo é diferente. vejo sorrisos e abraços apertados, que me fizeram “abraçar” também a eles, e de como são felizes com tão pouco, sabendo que a realidade é um tanto cruel, mas a vida continua sendo linda.

    Comentário por Fagner Fonseca | 19-03-08 | Responder


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