Blógico!

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Pretensioso, eu? Sim, confesso…

Para completar os comentários que fiz sobre minha vida na favela (ver post “Registro em Fotos 2“), e ainda para declarar mais uma vez meu amor pelos terraços (ver post “Lugar Nenhum“), esta crônica escrevi em 2001 – muito pretensiosa, eu sei, se quiser parar a leitura no meio eu vou entender 😉

“Buscava refazer o caminho que me trouxera até ali. Parecia que toda minha trajetória podia se resumir àquela imagem da noite. No terraço, bolha de breu entre as luzes da favela, me espichava sem mover músculos, como só é possível sobre as redes. Senti-me capaz de absorver-me e viver as memórias mais imediatas, o que também é uma forma de estar no presente. Neste raro momento, fui épico.

Mas uma lacuna, silenciosa e doce, se impunha. O que era, senão um vazio tão repleto que se abstinha de qualquer angústia, compaixão ou calmaria? Restava-me somente sê-lo – e até hoje, como se na memória do coração viessem gravadas as lembranças dos olhos, vejo a mureta, a encosta à frente com suas casas amareladas de tempo, pobreza e luzes baratas, o céu desestrelado, embaçado pela presença luminosa da cidade e o zigue-zague do varal de longos arames açoitando todo esse esboço de paisagem.

O tempo veio e virá, e eu podia sentir a torrente como se, sempre levado pelas águas, de repente agarrasse um galho e sentisse no corpo, pela primeira vez, que a água corre, enfim.

Certa vez, por volta dos dez anos, estava na cozinha com minha mãe. Devia ser um sábado, tarde talvez nublada, mas dia e hora não chegavam à cozinha sem luz natural, e reinava a lâmpada fluorescente, provendo quase sempre a mesma atmosfera. O assunto era uma das eternas tensões que sempre nos seguiram e uniram, e eu já vinha ouvindo palavras mais rígidas, até que mãe se perdeu em repreensões, dedo levantado e carranca colérica, coisas que para um menino sempre são um tanto vagas. Encolhido no canto do chão aonde já me encontrava eu via minha mãe se precipitar naquele ângulo ameaçador, e apesar de saber nulo o risco de um tapa sequer, me perdia na confusão do esporro e de meu desentendimento. De súbito me passou que se mãe morresse no dia seguinte aquela imagem ficaria talhada enquanto eu vivesse, e me ocorreu fixar a imagem, com a atenção que ela mereceria se um dia se tornasse sagrada. Apreendi todos os nuances de luz que já me eram tão familiares e ali faziam outras sombras. Me dedicava com fervor em fixar em nobre espaço da memória o quadro daquela mulher que cuspia lições rígidas, punha o dedo firme na minha cara e tentava me abrir os olhos para alguma coisa, com um naco da geladeira amarela ao lado e a lâmpada fluorescente bem em cima, ofuscando e renegando a professora às sombras. Mãe não morreu no dia seguinte, eu não me importei com a natureza macabra desta estranha forma de amor e a imagem está em exposição permanente aqui dentro, até sempre.

Já vem de muito, então, a minha fixação em fixar imagens, e tanto a tarde na cozinha quanto a noite no terraço não precisaram se encher de surpresas ou terrores para estarem eternizadas em mim. Na rede, lamentava pela enésima vez que na cidade as estrelas fossem tão tímidas, mas elas haviam, e cada uma era um clarão de século que eu atravessava esperando o retorno da cria ao colo.”

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08-04-08 - Posted by | Contos, Desabafo | , , ,

1 Comentário »

  1. Eu li tudo,rs,,,e achei muito interessante….
    e quero coisa nova amanhã…
    o comentário e só para que vc saiba que adoro oque oq vc escreve que leio…

    Comentário por Alle | 09-04-08 | Responder


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