Blógico!

Pensamento, cultura, artes, boas notícias

Mil motivos para me manter otimiista

Como já dizia o poeta (aquele poeta anônimo evocado quando não sabemos da origem de algo pretensamente bonito de que falamos), “Otimismo não é um estado de espírito, é um modo de encarar a vida”. Ou será que ele, o poeta, disse isso do humor? Tanto faz, estaria correto em ambos os casos. Frequentemente reproduzimos chavões como “Os tempos são duros”, “Não se há tempo para mais nada”, “Inversão de valores”, “Onde este mundo vai parar?” e tantos outros, dando eco ao côro dos cabisbaixos inveterados, aumentando a porção de desesperança diária. Os tempos são duros mesmo, e muito, realmente não temos tempo para quase nada além de trabalho, é fato que há uma “migração” de valores e eu confesso que também não sei onde este mundo vai parar (ninguém sabe afinal), mas não vejo em nada disso motivo para lamentação ou desânimo – vejo antes tantos outros motivos para crer mais e sempre na raça humana e no seu progresso moral, e vou tentar expô-los nessas tortas linhas de raciocínio.

Leonardo Boff disse em uma palestra na USP (provavelmente citando um poeta) que precisamos ser pessimistas no diagnóstico e otimistas na ação. Seria inútil desfraldar as intermináveis razões pelas quais achamos que “O mundo está perdido” (outro chavão), mas vejamos o contexto geral em que vivemos, e que já é ótimo material para um diagnóstico pessimista:

O processo de globalização acarretou grande fortalecimento das corporações privadas, que atuam predatoriamente, utilizando mão-de-obra escrava em países miseráveis para vender mercadorias conceituadas aos teens e cools dos países desenvolvidos e “emergentes”; O poder dos meios de comunicação de massa, nas mãos de grups hegemônicos, é enorme, capaz de influir em eleições e em toda a produção cultural; O avanço teccnológico está permitindo que o poder estabeleça um nível assustador de controle e vigilância; o medo preside relações inter-pessoais nas grandes cidades, desconfiança e desconhecimento mútus fazem os olhos buscarem aflitos por um canto de parede em que não haja ninguém, para se pousar a vista durante uma viagem de metrô; o processo de modernização deixou de ser um fato para se tornar, como tudo o mais pode ser hoje, um produto; um espiral de consumo injustificável, em nome de um crescimento econômico “absolutamente relativo”, movimenta constante ansiedade por “ter” e incentiva ao descarte interminável de novidades ainda frescas (é como se, para alavancarmos a indústria de maçãs, pretendêssemos convencer as pessoas de que a segunda mordida já não tem graça, que se deve morder, jogar fora e já desejar ardentemente o próximo modelo personalizado de maçã, que a propósito pouco lembra uma maçã). Vinte por cento da população consome um quinto a mais do que a capacidade de renovação do planeta, enquanto esmagadora maioria vive esmagada pela fome; as promessas da publicidade desenham uma face paradisiaca para este cenário: “viver sem fronteiras”, “Você em primeiro lugar”, “O melhor plano de saúde é viver”, “conforto e segurança ao seu alcance”, “A vida que você sempre quiz”, “Seja isso, seja assim” e principalmente “Você pode” e “Você merece”.

Diante dessas adversidades e de todas mais de que possa lembrar, me sinto realmente desconfortável e injuriado como… uma criança. Exatamente, como um menino de dois anos que desanima ante os blocos de montar, depois de os ver desabar, pilha após pilha, levando à lona suas custosas tentativas. O pai que a tudo assiste sabe bem que aquela não será a última tentative do menino, e conhece o enorme caminho que o filho percorrerá para se tornar um engenheiro e construir prédios de verdade, mas não adianta explicar para a criança essa relação de tempo e esforços, o coitado mal compreenderia a noção de anos ou décadas, frente o tão pouco que conhece de tempo; se regredirmos até o momento em que o bebê era recém-nascido, vamos encontrá-lo a debater-se convulsivamente, desesperado por não ver passar a cólica que mal começou e já parece inacabável – de volta aos dois anos, se começa uma dor e o pai diz que já passa, o menino compreende e suporta, mesmo a contragosto, porque já experimentou esta fração do tempo, ao contrário do recém nascido que não pára o choro enquanto não cessa a dôr. E o que somos, senão crianças? Teimosos, mesquinhos, anciosos por diversão e gozo, esperneamos ante dores ínfimas e que muitas vezes inventamos pra nós mesmos, quando aceitamos e “compramos” valores como individualismo, concentração de bens, culto ao corpo…

Quando penso na condição geral deste mundo e no estado de ignorância em que nos encontramos, é inevitável que me sinta pequeno, incapaz, despropriado de voz – e é na pequeneza que encontro a resposta. Explico-me: Considerando os quarto milhões e meio de anos da presença de nossa espécie no planeta, imaginemsos quantos séculos nossos ancestrais viveram entre paus, pedras e cavernas, familiarizando-se com o mecanismo básico de existir apenas, verbalizando os primeiros sentimentos às custas de penosas necessidades imediatas; depois promovendo mudanças lentas e esparçadas em sua realide, vivendo períodos enormes que eram vistos como estagnários, de tantas gerações que se alternavam sem ver mudanças nas estruturas. Vamos nos abstrair da realidade atual por um instante e pensar na Idade Média como exemplo – um tempo que grandes inteligências julgavam definitivo, o controle secular da igeja Católica, enormes dinastias se perpetuando com o aval de Deus mesmo, e… Não só passou, como a idéia de ter sido um período estagnário, portanto inútil, se torna inválida com a constatação de que duante o aparente período de repouso a estrutura estava se remodelando lentamente no sentido de permitir a aglutinação de pessoas em torno de laços comuns mais abrangentes, que se concretizou na forma de Estados depois de difícil transição.

É bom lembrar: não estou defendendo a inquizição ou as condições de vida deste período, só quero mostrar como a noção de “pequeneza” ante os problemas do mundo me levou a fundamentar meu otimismo frente a tais problemas (colossais, por sinal). Portanto, ao sentir-me tão ínfimo ante as Mazelas de hoje, percebi que sou muito menos do que isso, já que sou essa minúscula parte de um todo colossal, esta sociedade de hoje, que por sua vez é uma ínfima parte no processo de milhares de séculos de evolução da espécie (processo este que, por sua vez, é um instante se comparado à formação geológica do planeta, desde que o cuspe incandescente do Sol pôs-se em rotação, começando o processo imperceptível de resfriamento). Se formos transferir para o curso de um dia, 24 horas apenas, todo o período de vida do planeta Terra, o advento da humanidade se daria duante o ultimo Segundo deste dia. Diante deste raciocínio flagro-me a fazer o mesmo rosto de espanto de minha filha, quando disse a ela que conhecia um amigo desde vinte anos antes dela nascer…

E por fim, além de ver-me como criança, vejo que sou apenas uma na creche, e compreendendo que uma das fontes de nosso desespero seja nosssa “inexperiência”; alivia-me constatar que há muito o que ser feito sim, estamos muito longe do ideal sim, mas que as coisas só estão perdidas na mesma medida em que o estão na mente de uma criança consternada, para quem “Não adianta, não vamos conseguir nunca” (eis outro chavão).

Pode haver controvérsias quanto ao início da globalização como a entendemos hoje. Um grupo diz que iniciou-se com o desenvolvimento das tecnologias de transmissão eletrônica de dados, outro gruo afirma que as grandes navegações é que foram a mola deste processo, mas um fato que pode ser observado e não poderá ser negado é que, desde nossos primeiros passos sobre a Terra até hoje, seguimos, de modo geral, um padrão evolutivo, o de nos organizarmos em grupos gradativamente mais numerosos e complexos, cujos domínios extendem-se à medida que estes grupos evoluem em conhcimento adquirido. Vivemos em tribos nomades, em cidades-estado, reinos, impérios… hoje alguns países fariam a extenção territorial dos impérios parecer um sítio, e já vemos uma tendência de união dos países em poucos blocos. Esta “atração de mercúrio” através dos séculos é fato, e pode-se concluir que, tendo a globalização, como a concebemos, surgido aqui ou acolá, ela é efeito natural desta tendência de ampliarmo-nos como entidade coletiva, esgarçando o domínio dos laços que nos unem, à medida que nos tornamos senhores de nossas capacidades.

Portanto, se a causa da globalização está na tendência geral de nossa marcha na vida, e não nas conjunturas meramente econômicas (visto que o processo de aglutinação pôde ser observado nas mas diversas condições, constituindo-se fenômeno independente destas), atrevo-me a sentenciar, mesmo sem nenhuma autoridade, que “globalização” é o nome dado a este período de nossa aglutinação, mas que tornarmo-nos entidades coletivas mais complexas é algo que ocorrerá independente das condições, mesmo que haja secções como tantas já houveram. A não ser que não haja condições de vida, claro, e para garantir isso é preciso uma enorme luta, de cada um, primeiramente com os próprios hábitos de vida que possam contribuir para o estado atual das coisas (consumo desvairado, ira, geração de poluição etc), depois de nós, entidades coletivas, pelo progresso moral que nos levará a resoluções consistentes de nossos problemas.

Mas muitas vezes, para ensinar a um filho que certa attitude é perigosa, o pai precisa deixar que ele se machuque, certo? Errado, é a criança que precisa da dôr para compreender e registrar aquela informação, e se ela negligencia tantos avisos para aprender somente depois que pôs a mão no fogo, não se deve responsabilizar o pai pelo sofrimento do filho, e sim este prórprio pela escolha que fêz. É com tal criança que nos assemelhamos, pois se estamos passando uma catarze de desconfiança, medo, descrença nas instituições, incerteza e doenças, não é porque alguns grupos tornaram as coisas assim, ou porque estejamos fadados ao fracasso civilizatório, mas porque todos nós (e digo “nós” como este ser secular do qual faço parte) acreditamos e nos deixamos enveredar, criando as condições para nosso estado atual de coisas. Como já dizia o outro poeta (esse menos talentoso que o primeiro), “Não há mocinhos”.

Tantas comparações com crianças são graças ao fato de que a vida reproduz seus princípios nas infinitas escalas (veja-se a semelhança em aparência e mecanismo entre um átomo e uma galáxia), e é neste princípio que enxergo a prova de que temos saída para esta situação: A dor é desagradável, o ser busca a todo custo sair dela, e por isso mesmo ela proporciona aprendizado mais rápido, urgente. Quando a natureza quer estimular um comportamento no homem, seu cérebro libera substâncias que causam prazer, bem como a dor e o sofrimento servem para o homem como o cão que limita o afastamento das ovelhas do caminho correto. Por essa sabedoria da vida e por estarmos irremediavelmente sujeitos a ela, creio com toda força que a atual situação não poderá perdurar tanto quanto se imagina. Uma vez que prevê-se que, em poucos anos, não haverá riqueza capaz de preservar alguém dos prejuízos que certos desastres naturais irão causar, imagino que a presença da dor irá tornar-se tão grande quanto seja necessário para que mudemos de attitude, e que o instinto de preservação nos fará reconduzir nossas attitudes da maneira como já poderíamos ter feito ha muito tempo, já que sempre tivemos a escolha.

Mas… e o meu otimismo? Está a toda prova! Realmente acredito que esta mudança de attitude já está ocorrendo. Nota-se o surgimento de inúmeras organizações de interesse filantrópico, o conceito de responsabilidade social está se popularizando muito rápido, no Brasil os escândalos envolvendo o governo Lula propiciaram o surgimento, com força, de movimentos como “O Brasil que eu quero” e outros semelhantes, nas últimas eleições os programas sociais eram defendidos por todos os candidatos (independente de suas intenções, vejamos o fato, de eles terem que garantir a continuidade de tais programas, como a consagração de prioridade, na cabeça do eleitor, das questões sociais), o Fórum Social Mundial tem repercussão internacional com mensagens do tipo “Outro mundo é possível” etc.

Com a disseminação dos meios de comunicação interpessoal, fóruns, comunidades e grupos de discussão, estamos possibilitados a testar o que seja esta entidade coletiva global, que mostra seu primeiro esboço na forma da atual rede mundial de computadores.

Pesquisas no campo da comunicação mostraram como auditórios de mais de quinhentas pessoas podiam personificar-se em uma única vontade, através da representação, em telão, de cada assento da platéia, sujeita a alterações na medida que os participantes moviam placas em seus lugares – a ação coordenada dessas quinhentas pessoas permitiu o surgimento de bonecos na tela, e até mesmo de um jogo de ping-pong entre os lados do auditório, sem um commando específico e central, somente graças à possibilidade de cada um ver instantâneamente como sua ação interferia no todo – e assim fazer o que fosse preciso para o resultado final sair como o desejado. Este é o mecanismo que a rede mundial de computadores nos permite hoje, esta capacidade de mobilização e auto-regulamentação, mais do que falar com amigos em tempo real ou enviar a mesma piada para oitocentas pessoas ao mesmo tempo.

Na última guerra “pelo bem da democracia iraquiana” os blogs tiveram papel de destaque não só como fontes ágeis de notícia, como também para denunciar a manipulação das notícias “oficiais” dos grandes meios. Estava ali, ninguém podia impedir que informações livres e descompromissadas, devassando a dura realidade da guerra que a CNN idealizava via satélite, circulassem; muitos jornalistas das grandes emissoras furaram o bloqueio official com pseudônimos e pronto, simplesmente não se podia impedir o vazamento da verdade. Eis uma pequena mostra do poder deste novo meio que nos une mais do que reinos e impérios, e que poderá nos restituir a grandeza e a voz, se soubermos nos utilizar dele, e se tivermos vontade para tal. Ou então, se me permitem um ultimo chavão, “Salve-se quem puder!”

P.S.: Passei a noite no escritório para terminar esse texto. Rapaz, a gente hoje não tem tempo pra mais nada, onde isso vai parar…?

Anúncios

12-04-08 - Posted by | Carta Aberta, Desabafo, Mundo melhor | , ,

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: