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O culto ao vilão oculto.

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A ficção gobal está reinventando o vilão. Se você pensa que o maior deles, em Passione, veste saias, dê uma folga à Mariana Ximenes porque você também é vítima do verdadeiro crápula da trama.

Hollywood nos acostumou a vilões que fazem de tudo para serem detestados: mentem e matam tanto que logo estamos nos segurando pra não jogar tomates e palavrões contra as telas, e já torcemos para que o mocinho dê a eles o final trágico que fizeram por merecer. É assim que as platéias do mundo acabam desejando que alguém seja morto, mutilado, maltratado, humilhado ou desmaterializado – e chamam isso de final feliz. Eis a doutrinação que nos faz achar justificável qualquer atrocidade do mocinho (como invadir o Afeganistão, por exemplo).

Em Passione, a malvada Clara é capaz de tudo para merecer um final sangrento e sem compaixão. Mas ela engana alguns personagens, enquanto o outro, que na trama trai duas mulheres, segue sob os aplausos de milhões de espectadores.

O sangue latino que corre nas veias e casas brasileiras está fazendo com que um bígamo compulsivo e mentiroso contumaz seja visto não como aquele que traz sofrimento a duas famílias inteiras, mas como o coitadinho que, afinal, não comete outro crime senão amar demais sem se decidir.

Fragolloni ensaia sua pose de macho latino bem-sucedido. Lágrimas para fazer sorrir

Só mesmo o machismo diluido no caldo cultural deste país seria capaz de levar tal personagem para o núcleo cômico da novela, exibindo seus olhinos azuis de cachorro italiano que caiu da mudança, isento de qualquer acusação por parte do público. Com excessão de algumas mulheres que já tenham sofrido na pele os horrores da guerra (ou do amor, tanto faz o nome que se dê), o grande público vê com picardia a sucessão de engodos deste vilão com cara de mocinho.

Ele amar as duas deveria ser mais um motivo para não machucá-las, mas acaba sendo o passaporte para que seus crimes sejam vistos com ternura.

O amor é forte, justifica qualquer loucura e Bruno Gagliasso está hilariante na pele de Berilo, mas o que incomoda é a naturalidade com que sua conduta é satirizada e absolvida pelo autor e pelos espectadores.

Mesmo que a caretice tenha dado lugar a discussões menos fundamentalistas, seria improvável a mesma visão sobre uma mulher que se alternasse entre dois homens mentindo para ambos. Ela dificilmente seria tida como a “comedora irresistível vítima do amor”.

O problema não é Berilo estar com duas: Se os três vivessem em uma sociedade alternativa poligâmica ou simplesmente aceitassem de comum acordo a condição de triângulo, haveria polêmica e algum grau de escândalo, o que uma sucessão de mentiras descaradas não foi capaz de criar.

Os piores bandidos de Hollywood enganam a todo o elenco, mas raramente enganam ao espectador (salvo raros roteiros menos óbvios), mas NUNCA o fazem até o fim, quando são desmascarados e devidamente punidos para alívio geral. Mas Berilo deve sair são e salvo, e se tudo der certo (para ele) com dois filhos que servirão de aval para que ele continue vendo as suas respectivas mães.

Sabe-se que a Globo faz pesquisas regulares, que definem os rumos das novelas. Logo, se a trama de Berilo segue este rumo, é porque o público aprova.

O vilão consegue seu final feliz quando ilude a platéia.

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05-01-11 - Posted by | Crônica geral

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